quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Aqui fora não há estrelas

-E toda essa chuva, eu enfio aonde, no rabo?
Ela perguntou enquanto tentava tapar as feridas abertas da cara dela no espelho.
-Ou eu tomo uma overdose de morfina e finjo que tô dormindo no céu? Hein?
A-ha-ha. No colinho de deus. Céu... Essa historinha de céu nunca me convenceu não, menina. Vê se não escuta tudo que te contam. A vida parece um pouco com um hotel de rodoviária: sujo e sem cortinas. Não é qualquer um que aguenta muito tempo não.
E cadê o tal do céu aqui agora pra consertar minha pele doente? Hãn?
Eu sô só mais uma filha sem mãe nem céu porra nenhuma. Outra filha da dor desses corredores da noite, feitos de mijo e sangue. O teu mijo e o meu sangue.
Mas medo eu não tenho faz tempo.
O trem da morte apita apita apita e pára, e daí, você pondera, não vê nada melhor e embarca. Acende um cigarro amassado, estica as pernas e espera.

3 comentários:

Tati Plens disse...

É sempre preciso te ler com atenção e cuidado, essas linhas vem sempre carregadas de tanta coisa, tão forte e tão repletas de vida. Tudo que escorre pelo asfalto, pela calçada, pelas paredes, com o teu sangue. O trem da vida é o trem da morte, o outro trem é alguma fantasia do que não se vive, mas se pensa que vive.

obrigada pelo comentário pituca, tu é sempre luz mesmo pra mim. :}

Loan disse...

Imaculated.

flyingplatypus disse...

"O teu mijo e o meu sangue."

eh eh eh eh eh eh eh

:)